
Como fazer sua retrospectiva do ano (perguntas e um jeito mais gentil de olhar para trás)
Sua retrospectiva do ano não precisa ser uma auditoria de tudo que você não fez. Aqui estão as perguntas que valem a pena, um jeito simples de olhar para trás e por que o seu ano foi mais cheio do que você lembra.
Lá pelo fim de dezembro a pergunta aparece sozinha: o que eu fiz mesmo este ano? E a resposta honesta, naquela hora, costuma ser um dar de ombros. Você lembra de uma viagem, de uma coisa grande, de um período pesado. Doze meses, e só vêm três cenas.
A retrospectiva do ano serve para preencher o resto. Não é auditoria. Não é acerto de contas com as metas que você escreveu em janeiro e largou caladinho em fevereiro. É um olhar devagar e gentil para o ano que você viveu de verdade.
Por que o ano parece mais vazio do que foi
Tem uma coisa bem documentada no jeito como a gente julga qualquer período: lembramos dele pelo momento mais intenso e por como ele terminou. Os psicólogos chamam isso de regra do pico e do fim. Na prática, um novembro difícil consegue dar nota ao ano inteiro, e um junho ótimo quase não tem voz.
E tem a memória, que não guarda anos. Ela guarda um punhado de cenas e joga fora o resto, sem te perguntar quais é que importavam. Aí você senta no dia 30 de dezembro, pergunta o que aconteceu e a sua cabeça devolve as duas coisas mais barulhentas e um bocado de neblina.
O seu ano não encolheu. O que encolheu foi o registro que sobrou dele.
O que é, de verdade, uma retrospectiva do ano
Não é avaliação de desempenho da sua vida. Ninguém está te dando nota, e não existe uma versão do seu ano em que você devesse ter feito mais.
É olhar para o que de fato coube dentro dele:
- O que você terminou, e o que você começou e ainda está pela metade
- Aquela coisa difícil que você atravessou e que hoje resolve em meia frase
- Como você mudou: mais corajoso em alguma coisa, mais rápido para dizer não, mais devagar para se desesperar
- As pessoas - a amizade que você remendou, a ligação que finalmente fez, a ajuda que criou coragem de pedir
- O que você parou: um hábito, um emprego, alguma coisa que já tinha ficado pequena para você
- As alegrias miúdas e sem graça nenhuma, que são quase todo o material de que um ano é feito
O trabalho entra aqui também, claro. Mas ele é um cômodo dentro de uma casa bem maior, e quase todo mundo anota o cômodo e esquece a casa.
Perguntas para a sua retrospectiva do ano
Você não precisa responder todas. Vá descendo a lista e pare nas que mexerem com alguma coisa: quatro perguntas boas valem mais que vinte educadas.
O que aconteceu
- Quais são as três coisas deste ano que você teria adorado saber lá em janeiro?
- O que você terminou de verdade?
- O que você atravessou?
- Qual foi o mês mais duro, e o que te tirou dele?
- O que te pegou de surpresa?
Quem você se tornou
- Em que você está melhor hoje do que estava doze meses atrás?
- O que te dava medo antes e hoje dá menos?
- Sobre o que você mudou de ideia?
- Onde você foi corajoso sem ninguém perceber?
- A que você disse não? E era o não certo?
As pessoas
- Quem mais importou este ano? E essa pessoa sabe disso?
- Qual relação ficou mais próxima? Qual precisou de um limite?
- Quem te ajudou quando você não dava conta sozinho?
- E você, esteve ali por quem?
O que você leva com você
- O que você quer deixar para trás, neste ano que acaba?
- Do que você quer mais no ano que vem, descrito como uma sensação e não como uma meta?
- Se em dezembro do ano que vem você pudesse olhar para trás e sentir um orgulho quieto de uma coisa só, qual você gostaria que fosse?
Se alguma pergunta te der um aperto, normalmente é ela que tem alguma coisa dentro. Fique mais um pouco nessa.
Como fazer isso, na prática
Escolha uma noite em que você não chegue arrastando. Deixe o momento gostoso: um chá, um cobertor, aquele caderno bonito que você guarda faz tempo sem motivo nenhum.
Depois role o calendário, mês a mês, a partir de janeiro. Só esse gesto já faz quase todo o trabalho. As fotos também. Você vai esbarrar numa terça-feira qualquer de abril e a semana inteira em volta vai voltar de uma vez: é mesmo, isso tinha sumido completamente da minha cabeça. Anote conforme for lembrando, em lista, aos pedaços. Não é redação. Ninguém vai ler isso.
Inclua as partes duras. Uma retrospectiva que fica só com o lado bom não é gentil, é incompleta, e essa falta de honestidade dá para sentir na leitura. O ano que você aguentou conta tanto quanto o ano que você aproveitou.
E se você foi deixando registro pelo caminho - uma nota, um documento, um diário de conquistas - você pula a escavação inteira. Em vez de desenterrar doze meses, você lê. Dez minutos e ali está o seu ano, com a sua letra, com todas as coisinhas que você jamais teria resgatado sozinho. É esse, no fim, o argumento inteiro para anotar as conquistas na hora em que elas acontecem: o você de dezembro é um narrador pouco confiável de março.
Seja uma testemunha justa do seu próprio ano
O estranho de olhar para trás é a dureza com que quase todo mundo dá a sentença. Você jamais resumiria o ano de um amigo com um “não foi grande coisa, não”. Você listaria a mudança de casa, a doença que ele atravessou, aquilo que ele finalmente largou, o jeito como ele se segurou em outubro. E você estaria certo.
Dê a si mesmo essa mesma exatidão. A retrospectiva do ano não é decidir se o seu ano foi bom o bastante; é finalmente contar a verdade sobre ele. E a verdade quase sempre é mais cheia, mais corajosa e mais povoada de pequenas coisas boas do que aquele dar de ombros do começo.
Perguntas frequentes
Qualquer noite tranquila serve. Não precisa ser 31 de dezembro - essa noite costuma ser barulhenta e você chega nela cansado, a pior combinação possível para olhar para trás com honestidade. Meados de dezembro funciona. A primeira semana de janeiro também. E um domingo qualquer de fevereiro, quando você finalmente tiver espaço para isso, funciona igual.
Essa sensação quase nunca corresponde à realidade, e é justamente por isso que vale fazer a retrospectiva em vez de deixar pra lá. Abra o calendário e vá voltando mês a mês. Lá pelo meio de março você esbarra em alguma coisa que tinha esquecido por completo, e o ano começa a se preencher sozinho.
Quarenta minutos dão e sobram. Dez, se você já mantém uma lista das suas conquistas: aí é só ler, não precisa lembrar. Isso não é um projeto. Se começar a parecer dever de casa, você deixou grande demais.
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